O livro O Que É O Virtual? foi lançado no Brasil em 1996 pela Editora 34, em tradução de Paulo Neves. Foi publicado originalmente em 1995, com o título “Qu’est-ce que le virtuel?”, e explora idéias e conceitos que, à época, eram relativamente novos, e que viriam a se confirmar com o tempo:
“No limite, só há hoje um único computador, um único suporte para texto, mas tornou-se impossível traçar seus limites, fixar seu contorno. É um computador cujo centro está em toda parte e a circunferência em nenhuma, um computador hipertextual, disperso, vivo, pululante, inacabado, virtual, um computador de Babel: o próprio ciberespaço. (…) No ciberespaço, como qualquer ponto é diretamente acessável a partir de qualquer outro, será cada vez maior a tendência a substituir as cópias de documentos por ligações hipertextuais: no limite, basta que o texto exista fisicamente uma única vez na memória de um computador conectado à rede para que ele faça parte, graças a um conjunto de vínculos, de milhares ou mesmo de milhões de percursos ou de estruturas semânticas diferentes. (…)”.
Outras, porém, estão ainda longe de se tornarem realidade:
“Pode-se imaginar que os livros, os jornais, os documentos técnicos e administrativos impressos no futuro serão apenas, em grande parte, projeções temporárias e parciais de hipertextos on line muito mais ricos e sempre ativos”.
O mérito de Lévy foi enxergar, muito antes da explosão da utilização da world wide web, o quanto a digitalização e as novas formas de apresentação do texto possibilitariam outras maneiras de ler e de compreender:
“A multiplicação das telas anuncia o fim do escrito, como dão a entender certos profetas da desgraça? Essa idéia é muito provavelmente errônea. Certamente o texto digitalizado, fluido, reconfigurável à vontade, que se organiza de um modo não linear, que circula no interior de redes locais ou mundiais das quais cada participante é um autor e um editor potencial, esse texto diferencia-se do impresso clássico. (…) Mas convém não confundir o texto nem com o modo de difusão unilateral que é a imprensa, nem como o suporte estático que é o papel, nem como uma estrutura linear e fechada das mensagens. A cultura do texto, com o que ela implica de diferido na expressão, de distancia crítica na interpretação e de remissões cerradas no interior de um universo semântico de intertextualidade é, ao contrário, levada a um imenso desenvolvimento no novo espaço de comunicação das redes digitais. Longe de aniquilar o texto, a virtualização parece fazê-lo coincidir com sua essência subitamente desvelada. Como se a virtualização contemporânea realizasse o devir do texto. Enfim, como se saíssemos de uma certa pré-história e a aventura do texto começasse realmente. Como se acabássemos de inventar a escrita”
Além disso, o filósofo francês alertava para o surgimento de consumidores cada vez mais informados, capazes de questionar, até certo ponto, os profissionais intermediários com os quais contratam serviços:
A consulta a bancos de dados médicos e jurídicos on line por não especialistas progride continuamente. Os indivíduos podem assim questionar um diagnóstico ou um conselho dado por um profissional “de vizinhança”, e até mesmo ter acesso direto à informação pertinente junto ao melhores especialistas mundiais por intermédio de bancos de dados, de sistemas especialistas ou de sistemas hipermídia concebidos para ser consultados pelo grande público. (…) Como os produtores primários e os requerentes podem entrar diretamente em contato uns com os outros, toda uma classe de profissionais corre doravante o risco de ser vista como intermediários parasitas da informação (jornalistas, editores, professores, médicos, advogados, funcionários médios) ou da transação (comerciantes, banqueiros, agentes financeiros diversos) e tem seus papéis habituais ameaçados. Esse fenômeno é chamado a “desintermediação”. As instituições e profissões fragilizadas pela desintermediação e o crescimento da transparência só poderão sobreviver e prosperar no ciberespaço efetuando sua migração de competências para a organização da inteligência coletiva e do auxílio à navegação.
Da mesma forma, Lévy já imaginava que certos intermediários perderiam parte de sua importância, dando lugar a outros:
Munido de um computador, de um modem e de programas de filtragem e de exploração dos dados, associado a outros usuários em redes de trocas cooperativas de serviços e de informações quase gratuitas, o usuário final está cada vez melhor equipado para refinar a informação. O “produtor” habitual (professor, editor, jornalista, produtor de programas de televisão) luta assim para não se ver relegado ao papel de simples fornecedor de matéria-prima. De onde a batalha, do lado dos “produtores de conteúdos”, para reinstaurar tanto quanto possível, no novo espaço de interatividade, o papel que eles ocupavam no sistema unilateral das mídias ou na forma rígida das instituições hierárquicas. Mas, do lado da oferta, o novo ambiente econômico é muito mais favorável aos fornecedores de espaços, aos arquitetos de comunidades virtuais, aos vendedores de instrumento de transação e de navegação que aos clássicos difusores de conteúdos.
Lévy alertava, porém, que a propriedade intelectual não seria abandonada, mas sim adaptada à nova realidade:
Quanto à exploração econômica dos conteúdos em questão, as maneiras habituais de valorizar a propriedade sobre a informação (compra do suporte físico da informação ou pagamento de direitos autorais clássicos) são cada vez menos adaptadas ao caráter fluido e virtual das mensagens. Abandonar totalmente qualquer pretensão à propriedade sobre os programas e a informação, como certos ativistas da rede propõem, seria arriscar-se a voltar aquém da invenção do direito autoral e da patente, à época em que as idéias suadas dos trabalhadores intelectuais podiam ser bloqueadas por monopólios ou apropriadas sem contrapartida por potencias econômicas ou políticas. (…) Mas na época da economia da informação e do conhecimento, em vez de abandonar os direitos de propriedade sobre todas as formas de bens de software, o que equivaleria a uma espoliação descarada dos produtores de base, dos novos proletários que são os trabalhadores intelectuais, a tendência parece antes se orientar no sentido de uma sofisticação do direito autoral. Esse aperfeiçoamento se desenvolve em duas direções: passagem de um direito territorial a um direito de fluxo e passagem do valor de troca ao valor de uso. (…) A solução consistiria, portanto, não em suprimir completamente o direito autoral, mas em substituí-lo por sistemas de contagem contínua do consumo de informações pelos usuários finais.
Lévy já previa, também, o surgimento da compra de direitos de acesso ou de uso, com relação a obras intelectuais:
“Quando compro um livro ou um disco, pago algo real, suporte físico da informação. O livro que não leio me custa tão caro quanto o que leio. A quantidade de livros é limitada: um livro que está em minha biblioteca não está na sua. Estamos ainda no domínio dos recursos raros. Se compro direitos, não pago mais por algo real, mas algo potencial, a possibilidade de realizar ou de copiar a informação quantas vezes eu quiser”.
Lévy, porém, não imaginou que a compra de direitos seria tão atravancada pela própria indústria de entretenimento, com a criação dos mecanismos DRM – digital rights management (ou, como prefere Richard M. Stallmann, com boa dose de razão, digital restrictions management).
Entre as virtudes da Internet, destaca Lévy que, ao contrário do telefone (que representa um relacionamento um-um), no ciberespaço “cada um é potencialmente emissor e receptor num espaço qualitativamente diferenciado, não fixo, disposto pelos participantes, explorável. Aqui, não é principalmente por seu nome, sua posição geográfica ou social que as pessoas se encontram, mas segundo centros de interesses, numa paisagem comum do sentido ou do saber”.
Pondera também que, apesar de numerosos aspectos negativos – notadamente, como menciona, o “risco de deixar no acostamento da auto-estrada uma parte desqualificada da humanidade”, o ciberespaço manifesta “propriedades novas, que fazem dele um precioso instrumento de coordenação não hierárquica, de sinergização rápida das inteligências, de troca de conhecimentos, de navegação nos saberes e de autocriação deliberada de coletivos inteligentes”.
Por fim, Lévy indaga aos leitores: o torna a Internet tão interessante? Pondera que simplesmente dizer que ela é “anarquista” é um modo grosseiro e falso de apresentar as coisas; trata-se, em sua visão, de um objeto comum, dinâmico, construído, ou pelo menos alimentado, por todos os que o utilizam.
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fontes: http://www.leonardi.adv.br/blog/o-que-e-o-virtual-de-pierre-levy/




